
No CEUXCO (Centro Espírita de Umbanda Xangô Caô do Oriente), casa espírita do ritual Banthu-Ameríndio, onde professo minhas crenças e cultuo meus Orixás, temos como tradição comemorar em setembro os Ibejis. Orixás-crianças, ou gêmeos, ou encantados, são de grande importância nos trabalhos espirituais, tanto que, embora não possam ser Chefes de Cabeça, não é raro serem “coroados” 2° ou 3° Orixás na Cabeça de algum médium da casa. Outro dia mesmo, em uma quarta-feira de consulta onde prestamos caridade a quem nos procura, Pai Joaquim do Congo (Lula) me deu uma bela lição enfatizando a importância da ajuda destas entidades nos trabalhos dos pretos-velhos. Segundo ele, trabalhar com Ibejis era ótimo, já que eles se esforçam muito em ajudar, resolvem o que têm para resolver rápido e ainda voltam logo querendo fazer mais! Pensando nisso, resolvi prestar uma “homenagem”, publicando aqui esta bonita ITAN (Pra quem não sabe, um conto ou parábola, utilizada para transmitir conhecimentos na África ancestral) que, para mim, representa bem o poder e o jeito de "trabalhar-brincando" desta linha de Orixás:
“Os Ibejis, os orixás gêmeos, viviam para se divertir.
Não é por acaso que eram filhos de Oxum e Xangô.
Viviam tocando uns pequenos tambores mágicos, que ganharam de presente de sua mãe adotiva, Iemanjá.
Por onde passavam as pessoas falavam: “Olhem os Ibejis brincando”!
Nessa mesma época, a Morte colocou armadilhas em todos os caminhos e começou a comer os humanos que caíam em suas arapucas.
Homens, mulheres, velhos ou crianças, ninguém escapava da voracidade de Icu, a Morte.
Icu pegava todos antes do seu tempo de morrer haver chegado.
O terror se alastrou entre os humanos.
Sacerdotes, bruxos, adivinhos, curandeiros, todos se juntaram para pôr um fim à obsessão de Icu.
Mas todos foram vencidos.
Os humanos continuavam morrendo antes do seu tempo.
Os Ibejis, então, armaram um plano para deter Icu.
Um deles foi pela trilha perigosa onde Icu armara sua mortal armadilha.
O outro irmão seguia escondido, o acompanhado à distância por dentro do mato.
O Ibeji que ia pela trilha ia tocando seu pequeno tambor.
Tocava com tanto gosto e maestria que Icu, a Morte ficou maravilhada, não quis que ele morresse e o avisou da armadilha.
Icu se pôs a dançar inebriadamente, enfeitiçada pelo som do tambor do menino.
Quando o irmão cansou de tanto tocar, o outro, que estava escondido no mato, trocou de lugar com o irmão, sem que Icu nada percebesse.
E assim um irmão substituía o outro e a música jamais cessava.
E Icu dançava sem fazer sequer uma pausa.
Icu, ainda que estivesse muito cansada, não conseguia parar de dançar.
E o tambor continuava soando seu ritmo irresistível.
Icu já estava esgotada e pediu ao menino que parasse a música por uns instantes, para que ela pudesse descansar.
Icu implorava, queria descansar um pouco.
Icu já não agüentava mais dançar seu tétrico bailado.
Os Ibejis então propuseram um pacto.
A música pararia, mas a Morte teria que jurar que retiraria todas as armadilhas.
Icu não tinha escolha e rendeu-se.
Os gêmeos venceram.
Foi assim que os Ibejis salvaram os homens e ganharam fama de poderosos, porque nenhum outro orixá conseguiu ganhar aquela peleja com Icu, a Morte.
Os Ibejis são poderosos, mas o que eles gostam mesmo é de brincar.”
Essa itan, para bom entendedor, contém várias informações relacionadas aos Ibejis. Mas vale lembrar mais uma coisa que muitos podem não saber: Embora Icú, a Morte, não seja cultuado em nosso ritual, ele faz parte do panteão dos Orixás africanos. Segundo a crença yorubá, Icú é quem vem buscar as pessoas que morrem para levá-las de volta ao ventre de Nanã. É Nanã quem cria os seres do AIYÉ (Terra). Ela modela com a lama que tira da terra, mas quando Nanã cria uma pessoa, outra tem que morrer para preencher o buraco da terra. O buraco é o próprio ventre de Nanã, por isso ela precisa dos mortos que Icu vai buscar para enchê-lo de novo e o ciclo recomeçar...
Para quem quer saber mais:
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi
As Nações Kêtu – Origens, ritos e crenças – Agenor Miranda Rocha